ECONOMIA COLABORATIVA: STARTUP BRASILEIRA POSSIBILITA ALUGUEL DE PRODUTOS ENTRE USUÁRIOS

Giuliano Moretti, da eXGM Tech Ventures

A Allugator representa muito bem o rompimento com o tradicional modelo da economia baseada no consumo e posse permanente de bens, pois levanta a bandeira da nova economia com um “fluxo de serviços de aluguel de produtos” por meio de sua plataforma online.

INVESTIMENTO RESPONSÁVEL

Na comum perspectiva sobre oportunidades de investimentos, investidores pouco ou nada refletem sobre os impactos coletivos de suas operações, sejam eles sociais, ambientais ou econômicos em um determinado setor ou região. Ótica um tanto quanto individualista, cujo único aspecto que sustenta a tomada de decisão sobre investir ou não é a métrica do cash-on-cash. Ou seja, o percentual de retorno sobre o montante aplicado em um determinado empreendimento.

Por outro lado, esta visão vem se despindo da maculada prosperidade econômica individual, encontrando caminhos mais positivos ao apoiar pessoas e empreendimentos promissores. O investimento de vanguarda, agraciado por uma nova geração de investidores e em sinergia com novos empreendedores, não mais enxerga o lucro e apenas o lucro como motivação para suas operações. Em especial, quando se trata do investimento-anjo, quebra-se aquela fria lógica do benefício exclusivamente financeiro daquele que disponibiliza capital e nada mais. Projetam-se, agora, benefícios motivados por valores e ações que conferem significado muito maior à atividade de se investir numa empresa. Em linhas gerais, é o chamado “smart money”, pelo qual o investidor e os investidos cooperam mutuamente para o sucesso do empreendimento (e, claro, do investimento), sem prescindir da busca por resultados socioeconômicos e ambientais para uma cadeia muito maior de beneficiários, para não dizer a sociedade como um todo. E há investidores-anjo e startups brasileiras fazendo isso com muita destreza.

PLAYERS QUE LUCRAM, CRESCEM E BENEFICIAM A TODOS 

Já não é mais novidade para ninguém a necessidade de uma nova postura ética, social e ambiental por parte das organizações tradicionais, que vêm transformando seu jeito de fazer negócios de modo a ampliar seus impactos positivos sobre a sociedade influenciada por elas. Diminuir o consumo de recursos para a produção de bens (aumento da eficiência produtiva), definir estratégias voltadas a otimizar a logística de distribuição, prezar pela pluralidade/diversidade de colaboradores e clientes, estimular a inclusão social, atuar de acordo com códigos de ética empresarial, assim como promover melhorias na qualidade de vida são apenas alguns poucos exemplos dos compromissos que tais organizações devem ter como pauta-guia de suas operações. E tudo isso já deve fazer parte de seu cerne, isto é, deve estar impresso em seus valores essenciais que prescrevem as razões de sua existência no mercado.

Com as empresas embrionárias de crescimento exponencial, as chamadas startups, não poderia ser diferente. Não apenas porque já nascem numa era em que a disrupção com os valores (e conceitos) da velha economia é uma regra, mas sobretudo porque a nova geração que as empreende aflora com uma visão muito mais dedicada ao cuidado pelas pessoas, à preservação ambiental e à responsabilidade social, comparando-se com aquela que construiu as corporações voltadas para o obsoleto modelo de produção e consumo de bens.

Paul Hawken, Amory Lovins e L.H. Lovins já delineavam em seu livro Capitalismo Natural(1), publicado no ano 2000, que a nova economia contemplaria, entre outros aspectos, os chamados “fluxos de serviços” em contraposição à antiga produção de bens de consumo como base para a geração de riquezas. Na nova economia, pregam os autores, a força motriz que impulsiona os mercados é dada pelos serviços e não mais pelo indiscriminado consumo de bens como um fim encerrado em si mesmo.

Este novo cenário, é claro, projeta impactos mais positivos do que ofensivos ao meio ambiente, devido ao menor custo ambiental pela maior eficiência de uso dos bens produzidos. Ao passo que promove uma melhor fluidez na geração de empregos e, principalmente, na circulação de riquezas, já que o acesso a serviços de locação para uso intermitente de bens (ao invés do acesso pela sua aquisição definitiva) é facilitado à grande parte dos consumidores. Há menos geração de resíduos pelo descarte desses produtos ao final de sua vida útil, pois há menos produtos atendendo exclusivamente a uma minoria e maior “disponibilidade de uso” desses mesmos produtos de forma coletiva. Grosso modo, é o que se entende por Economia Colaborativa.

STARTUPS E A ECONOMIA COLABORATIVA

O Uber é um exemplo emblemático dessa realidade. Muitas pessoas estão abrindo mão da posse de um carro, que tem um custo de manutenção alto, gera altíssimos impactos ambientais e sociais, a exemplo da caótica (i)mobilidade urbana. Encontrou-se nele um meio mais prático e barato de se locomover, utilizando-se de serviços de terceiros que incorporam o uso dos seus bens (o próprio carro). Um veículo que antes servia a apenas uma, duas ou três famílias em sua vida útil, agora circula atendendo a um sem número de pessoas, múltiplas vezes, inclusive o próprio dono e sua família, até que seja descartado. Entretanto, você pode se perguntar se o taxi já não fazia isso. Sim, fazia e ainda o faz. Mas por ter sido altamente regulamentado pelo poder público, com licenças limitadas e reduzida concorrência, tornou-se pouco inovador, um tanto quanto custoso para o seu dono (prestador de serviço) e também para o usuário, obviamente. Concentrou-se delimitadamente, tornando-se desvantajoso se comparado ao desburocratizado e pulverizado serviço particular idealizado pelo Uber.

A startup Allugator nasce sobre as mesas bases. Sua plataforma dedicada ao marketplace de aluguel de produtos entre usuários revoluciona o mercado a favor de uma economia de fluxo de serviços. Ela possibilita o uso coletivo de produtos e, assim, reduz a necessidade de aquisição dos mesmos por parte de quem deles precisa apenas temporariamente. Quantas vezes em nossas vidas compramos produtos para uso pontual e não recorrente? Utilizados poucas vezes, ficam encostados, entulhados e acabam sendo descartados até mesmo enquanto ainda servíveis. Menos espaço em casa, desorganização e acúmulo de produtos agora sem um fim específico, o que nos traz incômodos e impactos ambientais.

Definitivamente, a Allugator vem com o objetivo de resolver isso de maneira simples, barata e segura. O argumento utilizado por um de seus idealizadores representa muito bem a dor que ela resolve: “se você precisa colocar um parafuso na parede para pendurar um quadro, você não precisa de uma furadeira, mas de um furo na parede“. Então para quê comprar uma furadeira se você quer apenas um furo na parede? Simples, mas sensacional. Fica evidente que alugar a ferramenta de quem a tem disponível seria muito mais inteligente e econômico, não é mesmo?

A Allugator representa muito bem o rompimento com o tradicional modelo da economia baseada no consumo e posse permanente de bens, pois levanta a bandeira da nova economia com um “fluxo de serviços de aluguel de produtos” por meio de sua plataforma online. Além de estimular a redução de impactos ambientais pela maior eficiência no uso colaborativo de produtos, diminui o consumo de bens que potencialmente seriam subaproveitados. Ainda, catalisa o acesso a esses produtos para uma maior parcela da população que antes nem mesmo poderia usufrui-los (impacto social positivo).

INVESTIMENTO PROMISSOR

Aos investidores-anjo que se reconhecem dentro da perspectiva do Investimento Responsável, foi possível aportar na startup Allugator por meio do prestigiado portal de investimentos especializado em startups EqSeed.com. Foram 46 investidores que reservaram 360 mil reais em cotas que representam 15% de participação no negócio, para viabilizar um novo tracionamento e ganho de escala. Atualmente com mais de 9.600 usuários, a plataforma foi uma das 10 Startups do Ano em 2017, segundo o Startup Awards, maior premiação do ecossistema brasileiro de startups, promovido pela Associação Brasileira de Startups(2).

Considerando que o valor estimado do mercado global de economia compartilhada atinge mais de 700 bilhões de dólares, movimentando no Brasil atualmente mais de 200 milhões de reais(2), não seria uma surpresa a realização de um exit de altíssimo sucesso para tais investidores num futuro breve. E viva a prática da Economia Colaborativa que prestigia o moderno entendimento sobre uma economia justa e equilibrada.


(1) Capitalismo Natural – Criando a próxima Revolução Industrial.  Paul Hawken,‎ Amory Lovins,‎ L.H. Lovins. Cultrix (2000).
(2) Fonte secundária de dados: EqSeed.com – Rodada da Allugator

SOBRE O AUTOR

Giuliano Moretti é Engenheiro Químico e de Segurança no Trabalho, Especialista em Sistemas de Gestão Ambiental e Mestre em Gestão Ambiental. Ao longo de 15 anos foi Diretor de Operações Sustentáveis da Preserva Ambiental Consultoria, enquanto professor universitário de pós-graduação. Apaixonado pelas startups e estudioso do ecossistema, hoje é Diretor de Participações da eXGM Tech Ventures, empresa dedicada a garimpar e apoiar boas oportunidades de negócios embrionários que reflitam potenciais resultados não só econômicos, mas também sociais e ambientais.